Os Três Jovens do Concelho de Óbidos

 

 

 

Nos últimos anos fizemos algumas pesquisas sobre a origem de Antônio de Almeida Ramos, na tentativa de descobrir um pouco sobre sua vida antes de passar ao Brasil. Para este mister entramos em contacto com o vigário da Freguesia do Espírito Santo do Landal, Freguesia do Espírito Santo, Concelho de Óbidos, Lisboa, Portugal. Por indicação do Padre, passamos a trocar correspondência com moradora de Caldas da Rainha, autora de um livro sobre a Câmara de Oliveira do Bairro e outro sobre a Freguesia do Espírito Santo do Landal. O que se verá a seguir é um resumo das informações recolhidas até agosto de 2001.

Por volta de 1740 passaram ao Brasil três jovens portugueses, nascidos na Freguesia do Espírito Santo do Landal, então Termo e Concelho de Óbidos, hoje Concelho de Caldas da Rainha. Foram eles:

1 - Antonio de Almeida Ramos, nascido entre 1722 e 1737;

2 - Agostinho de Almeida Ramos, nascido entre 1700 e 1730;

3 - Francisco Farto de Almeida, nascido entre 1715 e 1735.

Os dois últimos eram filhos de Francisco Farto e Maria Almeida, parentes próximos. O pai do primeiro, nosso biografado, era primo e cunhado de Francisco Farto, pois era irmão de Maria Almeida. A mãe de nosso biografado, Teresa Maria, era também parente de Francisco Farto.

A pesquisadora portuguesa escreveu:

A Freguesia do Espírito Santo do Landal é metade, a nascente, da grande freguesia de São Silvestre, a partir de 1147 dividida entre três Hospitalários e Cavaleiros Francos (todos cruzados), que ficaram na metade Poente, a que se chamou "Dos Francos".

Landal, onde havia um curato, etimologicamente vem de "terra landeira", ou montado de sobreiros espontâneos (nascidicos), cujo frunto é landa - ou bolota. E só teve a sua independência paroquial em princípios do século XVI. Desanexou-o de São Silvestre dos Francos um Comendador de Malta, residente, de apelido Abreu Peixoto.

Landal foi couto, que começava onde acabavam os coutos de Alcobaça - e ia até ao termo do território de Óbidos.

Desde o início, era cabeça desta Comenda dos Hospitalários de São João Batista de Jerusalém, sediada no Landal de Óbidos, Nossa Senhora de Todo o Mundo, ou do Ar - que é a padroeira da aviação portuguesa (e quiçá mundial), embora ainda não reconhecida como tal.

Por sua vez, esta Comenda era cabeça das Comendas da mesma ordem, situadas em Torres Vedras, Caixaria, Leiria, Torres Novas e Alenquer, cujos Tombos se guardavam no Landal.

Os seus habitantes formavam a 4ª Companhia de capitão e subalternos. Entre eles, destacam-se:

- Almeidas - ainda hoje há muitos. Num tombo dado às terras desta Comenda, em 1742, fala-se do seu vigário, Reverendo Frei Domingos de Almeida. Também o procurador da Comenda se chamava João de Almeida.

- Ramos - No inventário da ermida de Nossa Senhora do Rosário, do lugar dos Ameais, cita-se o seu fundador, Capitão de Malta Pedro Manoel Ramos. Em 1742, o seu administrador deve ser um descendente: João Manoel Ramos.

- Maria Teresa - assim se chamavam a mulher do Capitão Alexandre de Abreu Velho Coutinho e uma sua sobrinha, que faleceu no Landal - isto já em 1750

Tudo acabou em 1834! Depois, a sede da freguesia, o lugar do Landal, foi-se despovoando pouco a pouco - e hoje poucos habitantes tem. Os habitantes da freguesia rondam os 1800 a 2000.

 

Nossa correspondente fez diversos contactos com o Arquivo Nacional na Torre do Tombo, não tendo tido sucesso nas buscas de demais documentos. Fez também um "Aviso aos Moradores", que foi colocado na Igreja do Espírito Santo, pedindo aos paroquianos que enviassem informações a respeito dos três jovens portugueses e suas famílias. Além disso, ela guarda uma cópia do tombo dado em 1742 a uma parte das terras da Comenda e um manuscrito de seu próprio pai, com dados dos livros antigos, antes de os retirarem em 1834, para a Provedoria de Torres Vedras.

Eis os nomes de Capitães da Ordem de Malta por ela apurados:

 

- Manoel Ramos - casou, em 1694, com D. Victoria Maria de Seixas;

- Pedro Manoel Ramos - que mandou erigir a ermida dos Ameais;

- Alexandre de Abreu Velho Coutinho - casou, em 1750, com D. Teresa Maria de Seixas Abreu e Oliveira;

- João Rebelo - falecido em 1769;

- Domingos Rodrigues de Oliveira - falecido em 1796;

- Correia Fialho Lobo da Silveira - família conhecida de Alenquer, freguesia próxima;

- Antonio Manoel de Seixas, que foi testemunha no tombo dado a algumas terras da Comenda, em 1742.

Promotores do tombo:

- Juiz, Dr. Félix Francisco da Silva;

- Vigário, Frei Domingos de Almeida;

- Escrivão, José Leonardo de Seixas;

- Delegado da Comenda, João Almeida;

- Porteiro, Antonio dos Reis;

- Testemunhas, Capitão de Malta Antonio Manoel de Seixas e Frei Doutor João de Abreu e Oliveira (que , em 1759, veio a ser Vigário da Igreja Paroquial do Espírito Santo do Landal

Escreve ainda a pesquisadora:

Em 1742 não há Comendador residente no Landal. O Comendador era o Venerando Bailio Frei Fernando Correia de Lacerda, de Leca do Bailio. Não havendo Comendador residente é aqui que aparece, em 1742, o Procurador da Comenda João de Almeida. Era ele que, por natureza do cargo, se ocupava da administração directa e da contabilidade da Comenda da Ordem de Malta na Freguesia do Espírito Santo do Landal. Nada da confusões: o tombo é iniciado por um inventário à Igreja Paroquial e às capelas e, em 1742, não há referência alguma à Irmandade do Santíssimo Sacramento, cuja alusão só encontro em 1759, e sem grande relevo.

Reparo que há muitas repetições de apelidos (Seixas, Ramos, Almeida), sendo bem natural que os que de fora iam, por lá se fixassem durante gerações. Assim, deve ter havido algum Comendador residente, um Frei qualquer coisa Almeida, cujos parentes por lá ficaram e ocuparam vários cargos. E é natural que, mais tarde, um neto ou bisneto do tal Comendador Almeida, tivesse muita honra e prosápia (especialmente sendo um rapagote novo) na sua ascendência e dela falassse por forma que os seus conhecidos lhe chamassem "o Comendador".

Sobre os motivos da viagem dos três primos ao Brasil, lembro-lhe que no fim do reinado de D. Pedro II se descobriram, no Brasil, ricas minas de oiro e diamantes. Foi no tempo de seu filho, D. João V (1706-1750), que entraram em exploração. Esta foi a época em que embarcaram para o Brasil três moços da freguesia do Espírito Santo do Landal.

Assim, os três, sem mais nem menos?! Não. Eles sabiam ao que iam, o que os esperava. Alguém os chamou ou os mandou ir. Também convém não esquecer que a extinta Ordem do Templo se tornou, por obra de D. Dinis, Ordem de Cristo e teve à frente o Infante D. Henrique (1394-1460). Além disso, certo remanescente da O. do Templo reverteu para os então Hospitalários - O. de Malta. Sabe-se que os Templários há muito conheciam o Brasil - até antes de P. Alvares Cabral (100 anos antes), já os mesmos templários conheciam e praticavam essas rotas, segundo lendas quase históricas.

De uma maneira ou de outra, deve ter havido um Frei da O. de Malta que aliciou os moços para uma aventura que lhes traria fortuna certa. De outra forma, os três moços de famílias mais ou menos abastadas (ligadas à Ordem, que era riquíssima), não iam à tôa por esses mares fora, sem uma certeza a esperá-los do lado de lá. Sim, porque não creio que todos eles tivessem cometido crimes que os obrigassem a fugir.

Demais, D. João V confirmou os poderes e regalias da O. de Malta em 1728. Estava, portanto, tudo organizado para que o futuro dos moços atingisse o nível que atingiu. E sabemos que esses títulos obtidos implicam grandes contrapartidas - esforço, valor e... muito dinheiro.

 

Outros dados fornecidos pela pesquisadora portuguesa referem-se à população da Freguesia do Espírito Santo do Landal: 1527 - 135 moradores; 1759 - 263 moradores; 1960 - 1483 moradores; 1981 - 1331 moradores; 1999 - 1800 moradores.

Desta forma, embora sem termos descoberto muitos dados sobre os três jovens, pudemos conhecer um pouco sobre a região de origem de Antonio de Almeida Ramos, Agostinho de Almeida Ramos e Francisco Farto de Almeida.

Já nos arquivos brasileiros conseguimos verificar a presença dos nomes destes portugueses em diversas fontes. Numa delas, o Abecedário dos Moradores da Comarca do Rio das Mortes, documento da Coleção Casa dos Contos arquivado na Biblioteca Nacional, levantamos os moradores da Comarca que, de alguma forma, se vinculam aos povoadores de Leopoldina.

Esclareçamos que este documento é um conjunto de cinco cadernos tamanho ofício sem pauta, onde são listados os moradores de cada região da comarca. Até o momento não foi possível, a nenhum historiador, especialista ou técnico em grafoscopia, identificar a data em que a listagem foi organizada. No entanto, considerando que o primeiro caderno informa que seu autor foi Joaquim Silvério dos Reis, e sabendo que tal personagem arrematou o contrato das entradas entre 1782 e 1784, tendo permanecido no controle da arrecadação até 1792, pode-se inferir que ali constam os pagantes de tributos desta época.

Também não se tem notícia de qual foi a fonte utilizada para a organização da listagem. Admite-se que, ao tomar posse, Silvério dos Reis utilizou-se de livros de controle de arrecadação do quinto do ouro e deles extraiu os nomes dos que haviam sido fiscalizados no período próximo precedente. Acrescente-se que alguns nomes poderão ter sido acrescentados com base no movimento do Registro entre 1782 e 1792. Ao lado de cada nome é informado um número, sem que alguém até então tenha descoberto a que se refere. Há os que aventam a hipótese de ser o número da página onde foi efetuado o lançamento do débito daquele morador. Os mais altos algarismos são inferiores ao número total de páginas que habitualmente compunham os livros de registro então utilizados.

Nestes “cadernos” apuramos que, entre os moradores do Caminho Novo estavam os seguintes personagens, todos com descendentes em Leopoldina: Antonio d'Almeida Ramos, Antonio Joaquim de Ávila, Antonio Roiz da Fonseca, Antonio Roiz Gomes, Bernardino Coelho Gomes, Domingos Gonçalves Pereira Chaves, Domingos Roiz Chaves, Francisco Xavier da Fonseca, Joaquim José da Fonseca e Tomaz Ferreira de Aquino.

Sob o código I - 10, 6, 3, nº 4, sem menção ao autor e com caligrafia algo distinta do anterior, encontramos na Biblioteca Nacional a lista dos moradores do L4, como era então designada a região que tomava São João del Rey por sede. Neste caderno foram listados os moradores de São João del Rey, Lavras do Funil, São José do Rio das Mortes, Prado, Tamanduá, Borda do Campo, Caminho Novo do Mato, Santa Ana do Bambuí e Baependi. A organização é um pouco confusa, já que os moradores são divididos por seus locais de moradia e a ordem alfabética não é rigorosa. Numa análise um tanto superficial, localizamos apenas Felisberto da Silva residente em São José del Rey e dois moradores da Borda do Campo que nos interessam: Felix Gonçalves da Costa e Felix de Oliveira Braga.

E sob o código I - 10, 6, 3, nº 5, encontramos o caderno contendo as listas de moradores do L5 da Comarca do Rio das Mortes. Refere-se às localidades de Aiuruoca, Pouso Alto, Campanha do Rio Verde e Ouro Fino, Jacuí, Itajubá, Congonhas do Campo, Carijós e Itaverava. Para nossa surpresa, e sem que tivéssemos nos detido na análise cuidadosa dos nomes, na primeira página encontramos os moradores Agostinho de Almeida Ramos e Antonio Gonçalves da Costa, ambos de Aiuruoca.

Com o objetivo de a conferir o encontrado com outros documentos, pesquisamos a carta de Brás Álvares Antunes a Antonio Mendes da Costa, informando ter recebido a lista de 28 créditos do Registro do Caminho Novo e o envio da lista do Registro da Mantiqueira, de 06.10.1776. Em outra carta do mesmo remetente, endereçada a João Rodrigues de Macedo, há referência ao envio da lista de créditos do Caminho Novo, de 27.11.1777. Esta carta faz menção a um provável anexo, nomeado como "Lista 18, 24 credores".  Infelizmente porém, não há notícias desta "Lista 18".

Há uma série de outros documentos da Coleção Casa de Contos que poderão conter anexos como o citado na carta retro mencionada. Até que prossigamos neste assunto, deixamos registrada nossa impressão, tal qual o fizemos no competente livro de registros: os três jovens provenientes do Concelho de Óbidos aparecem entre os contribuintes registrados na segunda metade do século XVIII, bem como no Abecedário de Moradores da Comarca do Rio das Mortes.

Mas como era a região onde passaram a viver depois de deixar a terra natal?

 

 

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Texto publicado em 2001 e revisado em 2007, por Nilza Cantoni.

 

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