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  CADEIRA NÚMERO 13  
     
  FRANÇA JÚNIOR  
     
 

Oswaldo França Júnior, patrono da Cadeira nº 13 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes

 
 

Fotografia in: FRANÇA JÚNIOR, Oswaldo. À procura dos motivos. Rio de Janeiro: Codecri, 1982

 
     
     
 

UNIVERSO FICCIONAL DE OSWALDO FRANÇA JÚNIOR

 
 

Maria José Ladeira Garcia

 
     
 

Um excelente romancista.

Um dos melhores escritores de ficção do Brasil.

Rubem Braga

 
     
 

Oswaldo França Júnior nasceu na cidade do Serro, em Minas Gerais. Fez os estudos de 1º grau no Serro, Belo Horizonte e Ouro Preto. Ingressou na Aeronáutica em 1953, cursando a Escola Preparatória de Cadetes do Ar de Barbacena e terminando o curso de formação de Oficiais Aviadores em 1959. Especializou-se em aviação de combate em Fortaleza, Ceará, servindo após em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e novamente em Fortaleza.

Quando estava em Porto Alegre, iniciou o curso de Economia, mas não chegou a terminá-lo, porque teve que voltar à vida civil em 1964. Foi acusado de subversão pelo movimento militar que destituiu o Presidente da República.

Após deixar a Aeronáutica, dedicou-se à literatura, exercendo, simultaneamente, várias atividades: corretor de cereais, de imóveis, de mercado de capitais. Negociou carros usados; exerceu a função de gerente de linha de ônibus, de concessionária de carros novos. Foi sócio de empresa de táxi, proprietário de bancas de jornal e carrocinhas de pipocas. Trabalhou também na confecção de projetos industriais para a área da Sudene e da Sudam.

Seu primeiro livro foi O viúvo, publicado em 1965. Narra a história de um homem e seus dois filhos menores após a morte da esposa. O leitor compartilha intimamente dos seus sentimentos, do seu desamparo até chegar a um desfecho inesperado – a morte de Pedro, o protagonista.

Mas foi  com Jorge, um brasileiro , escrito em 1967,que ganhou o cobiçado Prêmio Walmap e se projetou no universo literário. A narrativa desnuda a viagem de um caminhoneiro pelas estradas de Minas, na época da construção de Brasília. Viagem em estrada tortuosa, com destino aparente, embora a direção não seja importante. Essa viagem é orientada por um flash-back principal que, na verdade, ocupa toda a narrativa.

O romance Um dia no Rio surgiu em 1969. Com extraordinário vigor e visão, apresenta os acontecimentos ocorridos em 1968, época em que o país presenciara as grandes manifestações estudantis, apoiadas por consideráveis parcelas da população, e combatidas pelas forças repressoras.

Essas manifestações são utilizadas como pano de fundo dos problemas individuais de um corretor mineiro que vai ao Rio e, durante um dia de negócios, vê-se envolvido nas tramas do protesto político.

O homem de macacão, surgido em 1972, gira em torno de um mecânico de automóveis na sua luta pela sobrevivência, suas relações amorosas, tentativas de êxito profissionalsua grande capacidade de resistência aos inúmeros obstáculos que a vida lhe apresenta. Trata-se de uma historia em que os fatos e os personagens em nada sobressaem ao dia  a dia comum dos brasileiros; talvez, por isso, nos surpreende a força com que somos atraidos e presos ao livro

A volta para Marilda, publicado em 1974, é narrativa introspectiva em flash-back sobre uma briga de amor. É a história de um negociante de materiais de construção com problemas, desprazeres e incoerências da própria vida; o laço homem-mulher é mais mental que físico..

Em 1976 surge  o romance Os dois irmãos  em que um irmão tenta convencer o outro a não passar o tempo procurando ouro e diamantes. Procura convencê-lo a abandonar aquele sonho, a mudar o modo de encarar a vida. Cria uma narrativa simples, e profunda, marcada pelo tom de parábola, em que os personagens representam modelos de comportamento humano. Leva-nos a refletir sobre o valor da solidariedade num mundo indiferente.

A obra As lembranças de Eliana. Surgida em 1978, retrata o dia a dia de uma mulher que vive sua solidão povoada de recordações da vida que foi passando através do irmão, do pai, do marido, do filho, de mortes, de medos e de perdas. A narrativa mostra a condição da mulher na família brasileira de classe média, sua posição numa sociedade patriarcal onde não conseguiu ainda o espaço para a plena realização pessoal.

Aqui e em outros lugares, surgiu em 1980. É uma façanha literária; um romance onde não existe uma história central. Os personagens, sem identificação nominal e sem estarem relacionados entre si, desfilam em várias histórias independentes, formando, porém, uma obra una e coesa.

Os personagens vão surgindo e, à primeira vista, parecem muito diferentes; porém, na essência, são todos iguais, movidos pelos mesmos sentimentos e sujeitos às mesmas limitações. Esta identidade é que une e faz com que a série de fatos e de situações se torne um romance original.

Em 1982, França Júnior apresenta Á procura dos motivos, É a história de um homem, aparentemente realizado na sua vida de cidadão, aparentemente feliz em sua vida emocional e sentimental, sem nenhuma problema com a família ou com a sociedade, que abandona tudo. Depois de percorrer alguns lugares, retira-se para uma fazenda onde morre sem aceitar ajuda de médico ou família. O mistério de Reginaldo fecha-se em sua própria morte. Dois anos depois, seus filhos vão conhecer a fazenda, à procura de informações que esclareçam o seu desaparecimento inexplicável. E a viagem se transforma em uma redescoberta daquele homem que os abandonara ainda jovens, de quem guardam apenas imagens da infância e adolescência.

Com O passo bandeira, publicado em 1984, o autor realiza o grande romance sobre a Aeronáutica brasileira. Sob uma aparente  simplicidade, leva-nos a perceber o verdadeiro espírito de nossos aviadores militares.

À medida que se avança na leitura, sente-se a história de um oficial expulso da Força Aérea por motivos políticos, com a descrição de seus pontos de vista, seus desajustes afetivos, sua árdua luta pela sobrevivência para novamente se afirmar como pessoa..Há também a história dramática e profundamente humana dos acontecimentos relacionados na narrativa.

Através de um fino humor, percebe-se uma visão do papel da Aeronáutica no contexto do país.

Em 1985, surge As laranjas iguais, coletânea de contos, desnudando a multiface do talento do escritor. O contoEu não o conheci’, considerado uma obra-prima do mini conto brasileiro, aborda a incomunicabilidade entre pais e filhos.

Há no livro sessenta contos que prendem o leitor, pela doce e suave harmonia do conjunto como uma música erudita. Apresenta temas sugestivos e profundos, numa linguagem impregnada de atmosfera poética, onde o real e o fantástico se mesclam, através de um mínimo de frases e palavras.

O escritor revela o homem com suas grandezas e misérias, aflorando mundos interiores enigmáticos e desencadeando, no leitor, a percepção de um subtexto pleno de significados.

É livro para ser lido, relido, para meditação , e, a cada leitura, descobrir-se-á como são múltiplas as facetas da condição humana e como é arriscado quaisquer prejulgamentos sobre o outro.

O romance Recordações de amar em Cuba surgiu em 1986. Fala sobre a viagem do autor e de outros cinco escritores brasileiros a Cuba, a convite do governo socialista para julgarem o Prêmio Literário Casa das Américas.

É  narrativa realista, relato de viagem que procura mostrar a vida de um povo que conseguiu dignidade para viver em solidariedade. É uma história de amor com observações pessoais e reflexões a respeito do tão controvertido regime de Fidel Castro.

O último romance de França Júnior, publicado em vida, é No fundo das águas, pois morreu prematuramente aos 52 anos, em 1989, perto do trevo da cidade de João Monlevade, na fatídica BR – 262.

Por ter sofrido diretamente os efeitos da ditadura militar logo em 1964, o romancista teve aguçada percepção da condição social do país; por isso, percebe-se, na obra, uma preocupação com a realidade brasileira como os efeitos dos empreendimentos tecnológicos que, muitas vezes, acabam produzindo uma certa melancolia no homem brasileiro, sobretudo, nas pessoas simples que formam o povo.

Na verdade, a narrativa de França Júnior nasce do contato com a realidade da experiência e da ação, produzindo um trabalho fascinante, destruidor e construtor, que o capitalismo vem realizando no Brasil, criando, com recursos memorialísticos, por conseqüência, no interior dos personagens, as solidões individuais; por isso, a temática de No fundo das águas é o caminhar humano para a morte, tecendo as lutas e os sonhos dos humildes personagens.

O ângulo escolhido pelo escritor é sempre de frente para os acontecimentos e em posição de absoluta exterioridade em relação ao narrado. A vida dos personagens é mostrada num recorde, sem desenvolvimento, e uma característica dessa obra é a insistência nos acontecimentos exteriores, como forma contemporânea de ordenar e interpretar a multiplicidade e a habilidade da experiência.

Pode-se dizer que França Júnior recria uma parte da história do Brasil em moldes individuais, através de sua própria vivência, porque é um escritor da realidade social brasileira que viu, revelando, portanto, identidade cultural brasileira, ao debruçar-se sobre acontecimentos vitais ligados à construção de Brasília.

E, assim, França vai tecendo fios da mineiridade, pautados nas ações do cotidiano, por meio de suas histórias, realçando a solidariedade do mineiro, pois os relatos são frutos da própria experiência do autor em suas andanças pelas Gerais.

Conclui-se que a maioria das obras apresenta semelhanças marcantes, seja no enredo ou no conteúdo e são dispostas de uma forma cuja redação possibilita uma atmosfera intimista e muitas vezes popularesca.

A ficção de França Júnior é também sutil comédia de costumes; se, por um lado, os personagens se fundem numa realidade mundana, por outro, seus dramas individuais cativam graças a um estilo espontâneo: os incidentes não são lembrados, mas revividos, com insistência e confusão.

Cada narrativa demonstra uma tendência a envolver o leitorpor meio de um tom intimista e confessional de inconsciente autoanálise. O interesse principal de França Júnior é pela psique de seus personagens cujos hábitos estão interligados ao desenvolvimento que o cenário e a atmosfera produzem.

A linguagem é despojada, direta , revelando a língua falada atualmente.

Como romancista alcançou um equilíbrio satisfatório entre o universo psicológico e o social como se percebe inclusive pela manipulação da linguagem.

Seu universo ficcional é uma análise objetiva da natureza humana com todas as suas virtudes e defeitos  e o que faz a obra ser aceita é a espontaneidade de sua técnica narrativa..

 
     
 

BIBLIOGRAFIA

 
     
 

BERNADETE, Ione. França Júnior pesca fundo e descobre uma vila submersa. Minas Gerais, Cultura e Arte, 16 dez. 1987. p. 11.

DIMAS, Antonio. Espaço e romance. São Paulo: Ática, 1985. (Série Princípios).

FRANÇA JÚNIOR, Oswaldo. À procura dos motivos. Rio de Janeiro: Codecri, 1982.

_____, As laranjas iguais. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

_____, Aqui e em outros lugares. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

_____, No fundo das águas. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

_____, O passo-bandeira: uma história de aviadores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

_____, Recordações de amar em Cuba. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

GOMES, Duílio. Jogo de metáforas. Suplemento literário do Minas Gerais. Belo Horizonte, a.XV, n. 842, 20 nov. 1982, p. 2.

LAFETÁ, João Luiz. O romance atual: considerações sobre Oswaldo França Júnior, Rui Mourão, Ivan Angelo. In: A dimensão da noite. Organização de Antonio Arnoni Prado. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2004. p. 241-64.

LIMA, Alceu Amoroso. Voz de Minas. (Ensaio de Sociologia Regional Brasileira ). São Paulo: Abril Cultural, 1983.

_____, Voz de Minas. Rio de Janeiro: Agir, 1945.

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SILVERMAN, Malcolm. Moderna ficção brasileira. Trad. João Guilherme Linke. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1982.