|
Tivemos
oportunidade de
trocar
opinião
com muitas pessoas durante nossas
buscas
para
compreender a
história da
Colônia
Agrícola da Constança. Ao abrirmos
espaço na
internet
para publicação dos
estudos, começamos a receber
mensagens
que
nos ajudam
com
informações e
nos trazem
novos
documentos.
Vez por outra estes interlocutores nos
obrigam a recorrer, inclusive, a literatura específica para esclarecer
dúvidas. Foi o
que aconteceu há
pouco
mais de
dois meses,
quando
um
leitor referiu-se à segregação
racial
por
parte de
imigrantes, o que teria impedido
matrimônio de
seus
filhos
com os
nacionais.
Nada nos faz crer que isto tenha
acontecido com os imigrantes por nós estudados. No
caso dos italianos, inclusive, se
analisarmos a
noção de pertencimento a uma
nação e as
condições
em
que passaram a
viver aqui, fica bastante claro que esta idéia
não prosperou entre eles.
Sabemos
que,
quando os
nossos
imigrantes atravessaram o
Atlântico,
não se sentiam propriamente
italianos, porque a
unificação da Itália
era
recente e
muitos
nem concordavam
com
ela.
Assim, é
possível imaginar
que
eles se sentiam
como pertencentes a
um paese, moradores de uma
determinada localidade. Mesmo
porque,
com
diferentes
santos de
devoção e falando
dialetos
distintos dos
outros
passageiros
que embarcavam no
mesmo porto, na
medida
em
que se acomodavam no vapor
experimentavam
emoções
tão
fortes
que, muitas
vezes, eram
forçados a uma
aproximação
difícil
com os
companheiros de
viagem, vencendo
com
sacrifício as
diferenças culturais
que os separavam
em
terra
firme. A
solidariedade nascia
durante o percurso e a
partir daí solidificavam-se
laços de
amizade,
especialmente
entre os
originários de
regiões italianas
mais próximas.
Ao se estabelecerem
em
território
brasileiro,
natural seria
que buscassem a
vizinhança de
amigos, o
que
nem
sempre
era facilitado
pelo
fazendeiro contratante. De
tal
sorte
que a
família italiana passaria a
conviver
com
pessoas de outras
etnias
que trabalhassem na
mesma
fazenda. Ressalte-se, a
propósito,
que o
estabelecimento de
relações
sociais
com
brasileiros
poderia
não
ser
mais
difícil do
que a
convivência
com
originários das
diferentes
regiões da Itália. E
naturalmente,
como ocorre
em
qualquer
grupo
social, os italianos preferiam
que
seus
filhos contraíssem
matrimônio
com
filhos de
famílias conhecidas.
O
casamento dos
filhos
era
também uma
forma de
arregimentar
mais
força de
trabalho
para
alcançar o
sonho de
comprar
um
pedaço de
terra.
Segundo declarou uma de nossas
entrevistadas,
seu
pai proibiu o
namoro
com
um
determinado
rapaz
que “não
tinha
jeito
para
lidar
com a
plantação”. E
mais
adiante completou: “Antes
de
casar
com
beltrano,
meu
pai ficava na
sala
para
vigiar
nosso
namoro e ia falando, ensinando
como
tinha
que
trabalhar na
roça
para
produzir
mais”.
Nenhum entrevistado,
porém, fez
referência a
impedimento
por
conta da
etnia.
Concluímos
que,
independente de
qualquer
tipo de segregação, as
relações eram pautadas
pelo
objetivo a
ser alcançado, incluindo o aumento da
renda
familiar.
Para
corroborar
nossa
posição, buscamos respaldo
nos
levantamentos
sobre a
população de Leopoldina
que temos realizado.
Apesar de
ainda
não concluída uma
listagem
exaustiva,
já chegamos a 4,5% de nascidos na
Itália
entre os moradores da
última
década do
século XIX. Na
mesma
época, 7,5% das
crianças batizadas tinham
pais italianos.
Quanto aos
casamentos, observamos
que
nos
primeiros
anos novecentos
são
freqüentes os
que envolvem duas
nacionalidades, chegando a uma
proporção de
três
consórcios
entre
diferentes
nacionalidades
para
cada
casamento
entre italianos.
É
por
isso
que,
em
nossos textox
sobre os moradores da
Colônia
Agrícola da Constança, aparecem
tantos
sobrenomes
não italianos
como
maridos
ou esposas dos
filhos dos
colonos.
Ou do
próprio
colono,
como foi o
caso de Giovanni Casadio.
Nascido a 31 de
maio de 1885
em
Massa
Lombarda, Ravenna, Emilia Romagna,
Giovanni
tinha o
mesmo
nome do
pai e
sua
mãe foi Luigia Martinelli, tendo
chegado ao Brasil
em 1898.
Em Leopoldina casou-se
com a
brasileira Carlota Maria da
Conceição,
com
quem teve, pelo menos, os
filhos Sebastião e Antonia.
Instalou-se no
lote 35 da
Colônia
Agrícola da Constança
em
junho de 1910.
Segundo
informou
um
seu
descendente, Giovanni Casadio
era a
imagem do
imigrante
obstinado,
para
quem a
vida “era
só
trabalhar,
trabalhar,
trabalhar.
Nada de
diversão”.
Entretanto, ao
ser perguntado
sobre a
rotina
diária, o
mesmo
personagem deixou
entrever
momentos de
puro
deleite,
em
que o
patriarca Giovanni contava
histórias da
vida na Itália, a
família cantava e dançava,
enquanto se preparava uma
saborosa
refeição
para
toda a família. |