100 anos da Colônia Agrícola da Constança

ALIMENTAÇÃO DOS COLONOS

Coluna Publicada n'O Leopoldinense, 31 janeiro 2007

 

Nesta nova série de colunas sobre os imigrantes italianos que viveram em Leopoldina, pretendemos abordar alguns aspectos ressaltados por diversos de nossos entrevistados, ao longo das pesquisas que fizemos para recuperar a história da Colônia Agrícola da Constança. Começaremos pelos hábitos alimentares.

Quando se pensa em alimentação dos italianos, é comum lembrar de mesa farta, suculentos pratos de massas regados a molhos variados e canecos com os melhores vinhos. A culinária italiana à disposição de todos! Mas os depoimentos colhidos de pessoas mais velhas, descendentes dos imigrantes que se fixaram na Colônia Agrícola da Constança e nos demais roçados da nossa Leopoldina, apontam para um quadro um pouco diverso.

Por aqui, ao que apuramos, pelo menos nas gerações mais antigas o vinho e o macarrão não freqüentavam as mesas diárias, na maioria das vezes montadas na própria cozinha e geralmente rodeadas de bancos de madeira. Tampouco havia macarrão nos caldeirões levados com o trabalhador para o local do trabalho. Vinhos e massas eram comuns apenas quando o almoço era servido na mesa da sala em dias de visitas, nos “jantarados” dos finais de semana e nas comemorações de algum acontecimento significativo. E são compreensíveis as razões para esta prática.

O clima quente de Leopoldina não se prestava ao plantio do trigo e da uva. Faltavam os mais elementares recursos para o seu cultivo e preparo nas terras montanhosas da nossa região. Por outro lado, adquirir os produtos deles derivados, nem sempre estava ao alcance daqueles colonos. Não pelo preço mas, também, pela dificuldade em encontrar no armazém e até de se deslocar da roça para a cidade e fazer a compra. Assim, tornou-se muito mais fácil ao colono imigrante adaptar-se à realidade dos que por aqui viviam e aderir aos costumes vigentes.

É bem verdade que existiu, ainda, um outro fator importante e que também precisa ser considerado. Alguns depoimentos nos dão conta de que muitos imigrantes haviam substituído a massa de suas mesas ainda na Itália, onde o trigo escasseava e atingia altas cotações. Com isto o talharim, os rissoles e pães, ainda na Itália haviam perdido a concorrência para o angu (de sal ou doce), a raspa, os bolos, as broas, as cavacas (bolachas endurecidas), o cubu, o milho cozido ou assado e demais derivados desse grão de cultivo e manejo mais fácil e de mercado bem mais simples.

Decorre daí o hábito de substituir o pão e outros alimentos por fubá cozido em água e sal. Seja no caldeirão do almoço ou, depois de frio, cortado em pedaços para acompanhar o jantar, o café da manhã ou a merenda vespertina, o angu com melado de cana era também muito apreciado.

Substituindo-se o sal por açúcar mascavo (açúcar preto), obtinha-se um angu doce que era despejado em porções na chapa do fogão à lenha e consumido com diferentes acompanhamentos, dependendo do tempo em que permanecia assando. Ainda mole, num prato de ágata, com leite; mais consistente, transformava-se em bolachas muito apreciadas; e, mais endurecido, tomava a forma conhecida comocavaca”, que substituía o pão.

Ao ser retirado da panela, o angu deixava uma grossa camada que se denominava raspa e que era consumida com leite nas refeições intermediárias. Fatiada e um pouco mais tostada, esta raspa era consumida ao estilo de petiscos. Se salpicada com açúcar, era saboreada como biscoitos.

Mas não como falar de alimentação de italianos sem um comentário sobre as massas. Nos valemos, então, do depoimento dos entrevistados. Um deles contou que sua mãe “preparava a massa de talharim, esticava-a na mesa da cozinha e cortava as fitas com uma faca, cozinhando-as em água com sal e preparando o molho à parte. Quando a massa cozida era jogada no molho, o cheiro forte atraía a todos, principalmente as crianças”.

Outro informante lembrou que a massa era colocada a secar numa peneira forrada com um pano e mais tarde era enrolada como um rocambole e cortada em fatias para serem cozidas em água quente temperada com gordura de porco.

Até a próxima coluna!

 

Luja Machado e Nilza Cantoni

 

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