100 anos da Colônia Agrícola da Constança

PRODUTOS PRESENTES NO COTIDIANO

Coluna Publicada n'O Leopoldinense, 13 fevereiro 2007

 

Na coluna anterior falamos dos alimentos derivados do milho. Agora vamos abordar o preparo de alguns produtos agrícolas.

Na Colônia e nas pequenas propriedades da região, as espigas de milho eram guardadas no paiol, um cômodo geralmente coberto com sapé ou telha canal, com paredes e assoalho de bambu, pau roliço ou ripa de madeira lavrada, com frestas que facilitavam a ventilação e evitava a proliferação de caruncho. De modo geral, era construído junto à casa do colono e, em alguns casos, debaixo dele ficava o chiqueiro onde se engordava o porco.

Era no paiol que se retirava a palha da espiga e debulhava-se (retirava o caroço do sabugo) o milho. Os grãos eram soprados, selecionados em peneiras de taquara e ensacados para serem levados para moagem. Alguns colonos utilizavam o pilão para socar e transformar o milho em canjiquinha. O mais comum, porém, era a utilização de moinhos de pedra movidos a água, que existiam pela redondeza, onde o colono entregava o milho e recebia o fubá, descontado de um percentual do peso que era deixado como pagamento pelo beneficiamento.

 A palha do milho também era aproveitada. Uma parte era deixada de molho n’água pura por algum tempo e depois, colocada para cozinhar com banha de boi e soda cáustica, em tacho apropriado, até formar uma pasta homogênea. Esta pasta, despejada em superfície lisa, depois de fria era cortada em barras, dando origem ao sabão utilizado na limpeza em geral.

Rasgada em tiras, a mesma palha servia como enchimento dos colchões para os catres (camas) da família e dos travesseiros, conhecidos pelos imigrantes por “gancilão”, talvez por uma forma dialetal de “guanciale”, ou seja, almofada. Limpa e trabalhada pelo canivete ou faca, servia como suporte para o fumo de rolo ou desfiado, na confecção dos cigarros. E se nenhuma dessas utilizações a consumia, era então jogada para o gado que dela se deliciava, principalmente na época da seca.

O sabugo, outro subproduto do milho, além de atender aos meninos na confecção de brinquedos como juntas-de-bois para os seus carrinhos, tinha como utilização geral facilitar o acender do fogão à lenha, por ser de combustão fácil e estar quase sempre guardado ao abrigo da umidade.

Ao lado do milho, outros produtos faziam parte dos “roçados” dos colonos. Um deles, o tomate, era ingrediente que não podia faltar no preparo final da massa. E para que pudesse ser utilizado o ano todo, o comum era guardá-lo desidratado. Colhido quando começava a amadurecer, era partido ao meio e colocado ao sol para secar. Posteriormente era guardado em potes. No momento de sua utilização era imerso em água morna para re-hidratação.

Nossos entrevistados mencionaram, também, o café que estava sempre no canto do fogão ou levado para a roça em garrafas de vidro arrolhadas com sabugo de milho. Seu preparo era todo doméstico. Colhido e seco, o grão era levado ao pilão para a retirada da casca. Depois de peneirado para limpar as impurezas, era torrado em panelas de ferro. Posteriormente, os grãos torrados eram passados em peneiras de taquara que os transformava em . Chamou-nos a atenção nos depoimentos o fato de não ter sido mencionada a utilização de moinhos de café, geralmente encontrados em boa parte das casas da zona rural. Mas acreditamos que a continuidade da pesquisa nos levará ao esclarecimento desta curiosidade.

Para concluir nossa abordagem sobre a alimentação dos italianos, lembramos que as principais refeições - almoço e jantar, eram compostas do tradicional arroz com feijão, uma ou outra verdura da horta, batata doce, mandioca, ovos e alguma carne de porco, boi ou caça, geralmente conservada em grandes latas ou panelas cheias de gordura (banha) de porco.

Algumas conservas à base de frutas faziam parte da dispensa da casa. Mas uma das faltas mais sentidas pelos imigrantes, segundo depoimentos, era a azeitona que por aqui não se plantava e que devia fazer parte dos molhos das massas ou ser consumida pura.

            Por hoje, ficamos por aqui.

 

Luja Machado e Nilza Cantoni

 

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