Capela de Santo Antônio, símbolo da Colônia Agrícola da Constança

100 anos da Colônia Agrícola da Constança

O SENTIMENTO DE NACIONALIDADE ITALIANA

Coluna publicada n'O Leopoldinense, 15 de janeiro de 2009

 

A falta de acesso à documentação das antigas fazendas de Leopoldina constituiu, para nós, um respeitável complicador para o estudo mais detalhado sobre a vida dos primeiros imigrantes que chegaram a Leopoldina. Mais, ainda, quando se sabe que, da documentação dessa época, muito pouco foi preservado pelos arquivos das instituições e repartições da região, o que leva os estudiosos a buscarem formas alternativas para suas pesquisas.

Para superar parte dessa dificuldade nos valemos de colaboradores. A partir de 1999, quando publicamos uma série de textos comemorativos dos 90 anos da Colônia Agrícola da Constança, começamos a receber mensagens de muitos leitores. Através delas surgiram as oportunidades de trocarmos informações com descendentes que guardam as memórias de suas famílias e com isto estamos conseguindo reconstituir boa parte dessa história.

Foi através destas conversas que vislumbramos, por exemplo, alguns aspectos que orientaram a vida senão de todos, mas de grande parte dos que viveram por aqui e que mudaram o curso da história de Leopoldina.

Conseguimos descobrir, por exemplo, que para os imigrantes, principalmente os italianos, ter terra era sinônimo de liberdade. Razão pela qual muitos levavam uma vida difícil e modesta, trabalhavam muito, controlavam suas economias e até abriam mão de pequenas coisas em prol de juntar dinheiro para a realização do sonho maior que era o de adquirir um pedaço de terra. E, via de regra, quando já haviam adquirido o primeiro lote o sonho se expandia no sentido de conquistar outros, preferencialmente nas proximidades, para acolher os descendentes e demais agregados.

Motivo, inclusive, para muitos deles, num espaço de tempo relativamente curto, terem se transformado de simples colonos em lavradores independentes, passando a formar a nova classe de pequenos e médios proprietários até então praticamente desconhecida na cidade. Imigrantes que chegaram como simples força de trabalho para a lavoura que perdera o braço escravo tornaram-se meeiros e, logo em seguida, prósperos sitiantes. Principalmente a partir da aquisição de lote na Colônia Agrícola da Constança, foco das nossas pesquisas na última década, um dos locais onde ocorreu uma concentração maior dessa transformação de empregado em sitiante.

Mas um outro aspecto da vida do imigrante italiano, não esclarecido em nossas pesquisas mas que gostaríamos de registrar, prende-se ao seu sentimento de nacionalidade.

Segundo João Fábio Bertonha, em Os Italianos, 2ª edição, São Paulo, Editora Contexto, 2005, o sentimento de nacionalidade italiana estava em início de construção quando se deu o grande movimento de travessia do Atlântico. Isto porque a Itália, recém-unificada, vinha de longos séculos de fragmentação política e cultural que não permitiam às classes populares a percepção de algo que unisse genoveses, venezianos, romanos e sicilianos sob um mesmo arco cultural. Esta fragmentação cultural, segundo o autor, está na origem, entre outras conseqüências, das diferenças lingüísticas que resultaram em italianos julgarem-se austríacos ou alemães, embora todos fossem provenientes de território abaixo do “passo de Brener”, marco geográfico que separa a Itália dos países alpinos.

Um outro ponto que merece registro é a religiosidade da imigrante italiano.

E mais uma vez recorremos ao mesmo autor que ressalta, na obra citada, que a “incapacidade do protestantismo em se estabelecer no território italiano aumentou ainda mais a força do catolicismo no ser italiano”. Lembra Bertonha que a cúpula da Igreja Católica, inclusive, preferia que os imigrantes viessem para a América do Sul porque aqui encontrariam solo fértil para a prática de sua fé religiosa.

Mas cabe aqui uma observação curiosa. Em Leopoldina só se lembraram de alocar um padre italiano quando a paróquia foi transferida para o Bispado de Mariana, em 1896.

Luja Machado e Nilza Cantoni

 

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