Capela de Santo Antônio, símbolo da Colônia Agrícola da Constança

100 anos da Colônia Agrícola da Constança

MENINOS E MENINAS DA COLÔNIA

Coluna publicada n'O Leopoldinense, 16 de maio de 2009

 

Na década de 1950 eram muitos os meninos e meninas que vagavam pelos caminhos da antiga Colônia Agrícola da Constança. Meninos e meninas alegres como devem ser as pessoas naquela fase da vida. Meninos e meninas a somar anos e a acumular saudades. Meninos e meninas responsáveis por tarefas penosas para a idade: buscar vacas e bezerros nos pastos, tratar dos animais do terreiro, ajudar no retiro, auxiliar nos muitos roçados, ajudar na cozinha e levar os caldeirões com o almoço dos "camaradas". Mas que não esqueciam de ser felizes.

Muitos deles, nas horas de folga, partiam por aqueles caminhos com seus alçapões e gaiolas de talo de imbaúba para aprisionarem pássaros, muito antes da conscientização hoje vigente sobre a preservação das espécies. Por vezes, apenas um pretexto para trocar um olhar comprido com uma italianinha do sítio vizinho. Alguns podiam ser vistos percorrendo os córregos e a Àgua-Espalhada para uma pescaria com balaios de taquara tecidos lá no pé da Serra da Vileta pelas mãos hábeis de um Bolzoni. Outros, com as suas atiradeiras de gancho de galho do arbusto conhecido como "esperta" e elástico de câmara de ar de bicicleta, disputavam torneios para ver quem acertava mais vezes os alvos que se apresentassem pelos caminhos. Outros, ainda, mais destemidos ou bem aquinhoados, para levar um recado ou realizar uma entrega de mercadoria pedalavam a bicicleta da família pela "rodagem", que era como os adultos se referiam às atuais rodovias  BR-116 e BR-267. Havia, também, os que freqüentavam os campinhos de terra, geralmente à tarde, onde rolavam bolas de meia ou de bexiga de porco. Os que desciam as ladeiras mais íngremes escorregando em cascas de árvores. Os que rolavam pedras do alto dos pastos para assistirem à descida daqueles blocos até seus paradeiros nas várzeas. E, ainda, os que participavam de todas as brincadeiras.

Mas o tempo seguiu seu curso e da roça fugiram as crianças, o fogão a lenha e a bica d’água na porta da cozinha, a foice, o machado e a enxada de quase todas as crianças que percorriam os caminhos da Colônia. Com elas, de roldão, também se foi o pirulito vermelho que ficava no vidro colocado sobre o balcão da venda do Timbiras e, pior do que tudo isto, a própria venda com os seus fregueses na porta. E de junto dela, o tamanco e toda a tamancaria do Geraldino Campana. Por semelhante rota partiu para longe o coleiro cujo ninho ficava na beira da estrada, pendurado numa raiz de arbusto ou no tufo de capim gordura; o tiziu que saltava na cabeça do mourão da beira da estrada; a andorinha que chocava na greta do barranco, perto da mina que servia à casa do Natinho Gottardo; e o bando de anus-pretos. Eles cederam lugar para as garças brancas que chegaram para catar as cigarrinhas do capim braquiara plantado na região. Por igual caminho partiu o godero, "pássaro safado" que, ali perto do campo de futebol da Boa Sorte, colocava seus ovos para chocar no ninho do tico-tico.

Na memória de cada um desses “antigos meninos e meninas” talvez ainda esteja registrada a recomendação de suas mães para, na ponte de tábuas que existia perto da Escola Climene Godinho, "tomar cuidado com os carros", porque era perigoso cruzar a ponte e encontrar o caminhão de leite do Geraldo Machado ou, o automóvel do inesquecível Dr. Joaquim Furtado Pinto. Coisas e preocupações daquele mundo que sumiu na poeira do trotar do cavalo e do pisotear do rebanho bovino tocado pela estrada de terra.

Um mundo que não existe porque hoje vagam por aqueles caminhos da Colônia apenas os pensamentos destes velhos e velhas que embargam a voz ao falarem da satisfação com que, no terreiro da sede da antiga fazenda Boa Sorte, com a permissão do pessoal da casa, colheram mangas maduras para garantirem o sustento na viagem de volta para casa. Destes senhores e senhoras que ainda se recordam de que, cem metros depois daquela sede, em terras do lote nº. 22, na beira da estrada, existia um cajueiro que fornecia frutos deliciosos a quem se dispusesse a pendurar-se nos seus galhos. E, mais adiante, no caminho para o mato que divisava com o lote dos Sangirolami, dois ou três pés de ingá se encarregavam de fornecer frutos para adocicar a vida de toda a meninada.

Pensamentos que vagam, também, pelos caminhos do atual bairro da Constança, com as lembranças das terras dos Lupatini, de onde durante muito tempo partiu o caminhão que recolhia o leite dos retiros da "linha de Tebas e adjacências". Lembranças da fábrica de doces de manga do Nicanor Brügger e da propriedade do Alexandre Bedin, destaque lá no fundo do vale que sustenta o pico da serra da Vileta. Lembranças, também, do caminho que subia para a fazenda do Paraíso, ali no atual trevo de Juiz de Fora, nas terras da Dona Marieta Werneck, onde se colhia e comia a melhor goiaba de que se sentiu o sabor, desde os tempos em que aqueles meninos e meninas não sabiam que estavam percorrendo os caminhos da agora centenária Colônia Agrícola da Constança.

Luja Machado e Nilza Cantoni

 

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