100 anos da Colônia Agrícola da Constança

LAZER

Coluna Publicada n'O Leopoldinense, 15 março 2007

 

Conforme os nossos leitores devem ter observado, escolhemos a Capela da Onça, como símbolo da nossa coluna. Hoje, como vamos falar do lazer dos colonos, iniciamos comentando que esta nossa escolha baseou-se na imagem mais comumente referida por nossos entrevistados. Além da religiosidade propriamente dita, a Capela muito representou na vida dos imigrantes que se instalaram na Colônia Agrícola da Constança. Era em torno dela que se realizavam quase todas as festividades.

A regra na Colônia era o trabalho. O cantar do galo encontrava a maioria dos habitantes no batente diário. Ali, em praticamente todos os lotes, colonos e agregados se dedicavam com afinco às tarefas, em casa, no terreiro ou nas lavouras, sem se preocuparem com diversão. Nos poucos momentos dedicados ao lazer, segundo os depoimentos colhidos, as alternativas não eram muitas.

Em linhas gerais poderíamos afirmar que as mulheres se divertiam principalmente nas festas religiosas e nas visitas aos parentes, vizinhos e conterrâneos. E quando falamos em festejos religiosos não podemos esquecer a geral participação dos colonos nas festas promovidas na igrejinha da Onça, consagrada a Santo Antonio, construída em 1915 pelos colonos e demais habitantes das terras da antiga fazenda da Onça.

Principalmente a animada festa anual dedicada ao padroeiro Santo Antonio, que reunia um grande número de participantes oriundos das propriedades da redondeza e, em número bastante significativo pessoas que vinham da sede do município. Com suas barraquinhas a servir os mais variados quitutes e os disputados leilões de prendas oferecidas pela comunidade e apregoadas pelo senhor Carlos (Carrito) Almeida, a “Festa da Onça”, como ficou conhecida, atraía gente de todas as idades.

A confirmar a importância desta festa, soubemos que famílias residentes na estrada da Lajinha programavam longamente o passeio. Numa delas, contou-nos um descendente, as moças preparavam-se com afinco, costurando novos vestidos ou reformando algum mais antigo, sempre com a intenção de apresentar-se condignamente. No dia da festa, vinham em carro de boi da fazenda até a cidade, carregando vestes e calçados em um grande embornal. Depois de tomar banho e vestir-se em casa de algum parente ou amigo, punham-se a caminhar, descalças, até o local da festa. Nas proximidades, lavavam os pés e calçavam seus sapatos que, na maioria das vezes, causavam-lhes supliciantes calosidades.

Divertidos, também, embora bastante raros, eram os bailes e reuniões em que se comemoravam os casamentos de pessoas ligadas à Colônia. Contou-nos um descendente que a festa do casamento de sua tia foi promovida pelos padrinhos da noiva, arranjando-se um grandesalão de arrasta-pé” no terreiro da casa dos pais da noiva. Após a cerimônia religiosa, os convidados foram caminhando até a casa, muitos deles com os sapatos nas mãos. A noiva, toda animada, ia na frente da verdadeira procissão de parentes e amigos.

A outra atividade de lazer das mulheres era a visita aos parentes e conterrâneos, geralmente nos finais de semana. os homens, embora freqüentemente realizassem as mesmas visitas e muitas vezes desacompanhados, buscavam diversão também nas raias destinadas ao jogo de malha, nas várzeas onde se demarcavam campos para a prática do jogo de futebol, e nas mesas de carteados montadas na “venda ou na casa de amigos. Alguns apreciavam as caçadas ao tatu e à paca, geralmente realizadas nas noites de lua cheia, assim como a apreensão de passarinhos como o canário da terra, o coleiro, o pintassilgo, o melro e o curió, apreciados pela beleza da plumagem e pelo canto.

De um tempo posterior à emancipação oficial da Colônia temos notícias relativas ao time de futebol denominado Boa Sorte Futebol Clube, que chegou a disputar campeonatos amadores na cidade. Durante muitos anos, a partir do meado dos anos de 1900 e até o início do século XXI, o Boa Sorte Futebol Clube foi estruturado e mantido por João Bonin (Bonini), proprietário das terras onde ficava a sede da fazenda Boa Sorte, tendo a casa servido de sede administrativa do Clube. Seus herdeiros, muitos dos quais ex-jogadores do time, ainda preservam os troféus e objetos do Boa Sorte F.C.

João, hoje falecido, era o mais velho filho de Jacinto Bonini e Marcelina Colle, sendo neto paterno dos italianos Fortunato Bonini e Maria Darglia, que passaram ao Brasil em 1885 para trabalhar na Colônia Imperial Grão Pará, em Orleans, SC. Pouco tempo ficaram em terras catarinenses, que em 1890 batizavam um filho em Leopoldina. Quando da organização da Colônia Agrícola da Constança, Fortunato Bonini instalou-se no lote 23 em 25.11.1911, e dali parte da família nunca se afastou. O neto João Bonin, agricultor por profissão, era um grande entusiasta do time de futebol, além de um dedicado pai de uma prole de doze filhos.

 

Luja Machado e Nilza Cantoni

 

HOME

Colunas Anteriores

ENTRE EM CONTATO

Creative Commons License
Este trabalho está sujeito a uma licença de uso: Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 3.0 License.