90 ANOS DA COLÔNIA CONSTANÇA XII

Coluna publicada na Gazeta de Leopoldina de 18.01.2001

 

Dando continuidade ao texto anterior, divulgamos neste, o que descobrimos sobre mais algumas famílias que se ligaram à Colônia Constança. E partimos, hoje, de Giovanni Lupatini.

Mas, antes, reafirmamos que nosso trabalho ainda carece de mais pesquisas e que a divulgação é feita na esperança de sermos úteis a quem se interessar pelo assunto e na certeza de que novas colaborações surgirão, com cópias de documentos que nos proporcionarão a oportunidade de, no futuro, reunir toda a história da Colônia e de boa parte da região.

De início vale registrar que LUPATINI (Lupatti) vem do latim "lupus" = lobo, animal sagrado entre os antigos, acrescido do sufixo plural "atti". O sobrenome Lupatti remete-nos às características deste animal. Significa também "caçador de lobos" e teve sua forma original alterada para Lupatini.

Atualmente, encontramos Lupatinis vivendo em 55 comuni italianas, especialmente na Lombardia, alguns na Liguria e no Veneto. No Brasil localizamos Lupatini nos estados de Minas (J. Fora e Leopoldina), Paraná (dentre outras cidades, em Curitiba e Cascavel), São Paulo e Bahia (em Salvador e Barreiras).

Ao que se sabe a família Lupatini é originária da "comune" (cidade) de Castrezzato, na zona geográfica de Franciacorta, região montanhosa ao norte da estrada Milão-Veneza. Por toda a região se encontram pequenas cidades (paesi) tranqüilas e imersas no verde dos bosques. A principal atividade de seus habitantes é a vinicultura, destacando-se a produção dos espumantes.

Comparando-se com a nossa Leopoldina, com seus 46.969 habitantes, distribuídos por uma área de 947,07 km ², segundo o censo de 1996, Castrezzato é minúscula. Possui 13,70 km² e ali vivem atualmente 4.154 pessoas que são chamadas de "castrezzatesi". Castrezzato está subordinada à comune da Brescia, capital da província de mesmo nome. A Brescia, por sua vez, é uma das divisões da região da Lombardia, uma das maiores províncias italianas, com 206 comuni (cidades).

A região da Lombardia, em seus 23.872 km ², tem hoje uma população de 8.988.951 habitantes. Apesar da diferença de mais de um século, entre a época da imigração dos Lupatini e nossos dias, a densidade demográfica naquela região modificou muito pouco, diferentemente daqui. Enquanto lá a relação passou de aproximadamente 389 para os atuais 377 habitantes por km ², em Leopoldina saímos de 33 em 1880 para 49 habitantes por km² em 1996. Essa intensa ocupação territorial foi, inclusive, um dos motivos que mais estimularam os nossos italianos a cruzarem o oceano. Vivendo dificuldades de toda natureza, sofrendo com a falta de espaço agricultável, sonhando em legar aos descendentes uma vida menos atribulada que no então novíssimo país chamado Itália, os "nonos" criaram o sonho de "fare l'América", fazer a América. E assim, da Lombardia, vieram muitas das famílias que se fixaram em Leopoldina.

Mas nos fixemos aqui, na de GIOVANNI LUPATINI.

GIOVANNI LUPATINI nasceu em 1856 em Castrezzato e morreu a 09.06.1917, em Leopoldina-MG.  Casou-se com sua conterrânea MARIA ZANETTI, nascida em 08.09.1859, filha de VICENZO ZANETTI e GIULIA VESSOLIO.

No Livro da Hospedaria de Imigrantes, consta que a família chegou ao Brasil pelo Vapor Barmida e, em 25.11.1895, foi contratada por José Ribeiro Junqueira, indo residir em Santa Isabel (Abaíba). Tempos depois a família mudou-se para a Colônia Constança.

Do casal GIOVANNI e MARIA ZANETTI são os filhos: 1 - SANTINA LUPATINI, nascida em 1885 em Castrezzato Lombardia-Italia e que se casou com RAFAEL MORONI;  2 - GIULIA FRANCESCA LUPATINI, em 21.05.1887, na mesma cidade, casada com GIUSEPPE ABRAÃO MORONI;  3 - EMA METILDE LUPATINI, em 17.02.1890 em Castrezzato, casada com ABILIO MORONI; 4 - GIUSEPPE PIETRO LUPATINI, nascido em 25.02.1897, em Leopoldina, casado com MARIA LAECTICIA CAMPANA; 5 - VICENZO PIETRO LUPATINI, em 22.11.1900, casado com MARIA DOS ANJOS CAMPOS;  e, 6 - JOÃO LUPATINI, em 04.12.02, casado com MARIA ZAMPIER ALBERTONI.

Antes, porém, de relacionarmos os descendentes desses casais, voltemos a falar  um pouco mais sobre a terra natal de Santina, Giulia e Ema, nascidas na Lombardia.

A Lombardia tem uma história riquíssima, pois que representa, desde tempos imemoriais, o encontro das culturas mediterrânea e continental. Seu nome provém do povo alemão Longobardo, que dominou aquelas paragens por mais de 300 anos. Sua localização estimulou, posteriormente, uma grande onda migratória dos Celtas, que fundaram Milão, após expulsarem os Etruscos. No período seguinte, os Celtas foram expulsos pelos Romanos e teve início uma era de desenvolvimento até então desconhecida na região.  A via Emília, famosa estrada que permitia a melhor ligação entre os povos continentais e o Mediterrâneo, representa um marco do período de dominação romana. Período em que também se conheceu um grande incremento do comércio e da cultura, trazendo para a Lombardia as idéias que se transformaram em uma nova ordem arquitetônica. Na era moderna a Lombardia esteve sob domínio dos Franceses e dos Espanhóis, que a dominaram de 1535 a 1700. É deste período uma das piores referências de que se tem notícia: a queda do Ducado de Milão, com um crescimento astronômico do custo de vida e a peste, que reduziu sua população a um terço. No decorrer do século XVIII a região passou ao domínio da Áustria e com isto voltou a conhecer um período de intenso desenvolvimento. Em 1797, após a campanha de Napoleão, a Lombardia passou a pertencer à República Cisalpina, com sede em Milão. O congresso de Viena, em 1815, instituiu o Reino Lombardo-Veneto, sob domínio austríaco e capitais em Milão e Venezia. Em 1849 tem início a primeira guerra pela independência. Somente dez anos depois, na Conferência de Zurique, a situação de paz foi implantada através da anexação da Lombardia ao Piemonte, sob domínio do Reino de Savoia. Em 1861, com a formação do Estado Italiano, a Lombardia se une às demais regiões da península e a partir daí, tem início uma nova era de progresso, especialmente industrial.

Dito isto, voltemos aos filhos de  GIOVANNI LUPATINI  e  MARIA ZANETTI:

1 - SANTINA LUPATINI  veio para o Brasil em 1895, pelo Vapor Barmida. Aqui se casou com RAFAEL MORONI. Desse casal descendem: a) MARIA LUIZA MORONI, nascida em 28.12.1913; b) PEDRO MORONI, em 07.07.16; e, c) JOÃO BATISTA MORONI, em 29.08.17. Todos eles, nascidos em Leopoldina. Pelos registros de batismo sabe-se que Giovanni Campana e Maria Campana foram os padrinhos de Maria Luiza. José Lupatini e Maria Zanetti, batizaram Pedro, no dia 08.09.16 e, para padrinhos de João Batista, foram chamados Eugenio Codo e Alexandrina Codo.

2 - GIULIA FRANCESCA LUPATINI  casou-se com GIUSEPPE ABRAÃO MORONI, nascido em 1888, em Ghisalba-Bergamo-Lombardia. Era filho de Giuseppe Moroni e Lucia Filipoli. Provavelmente, irmão de Rafael Moroni, esposo de Santina Lupatini e de Abilio Moroni, que se casou com Ema M. Lupatini. Mas sobre os Moroni ainda não concluímos os estudos. Falta-nos determinar a relação de parentesco entre os diversos usuários do sobrenome. Quanto à Giulia Francesca, sabemos que ela chegou ao Brasil em 1895, casou-se em 04.01.1908 e, em 14.08.1910, retornou à Brescia-Itália, onde faleceu em 03.12.1967. Não temos notícias de seus descendentes.

3 - EMA METILDE LUPATINI casou-se, como foi dito, em julho de 1911, com ABILIO MORONI. Deste casal são os filhos: a) JOSÉ, nascido em  01.07.1912;  b) LUZIA, em 01.11.14;  c) JULIO, em 19.12.15;  d) JOÃO BATISTA, em  09.04.18;  e) JULIO, em 14.11.19;  e,  f) CHRISTINA, em 16.04.21. Curioso observar a existência de dois filhos com o mesmo nome (Julio). Tudo leva a crer que o primeiro tenha morrido no primeiro ano de vida. Ele foi batizado em 06.01.16, tendo como padrinhos José Lupatini e Maria Campana. Este mesmo casal aparece como padrinhos do João Batista, batizado em 20.05.18.

4 - GIUSEPPE PIETRO LUPATINI  e MARIA LAECTICIA CAMPANA casaram-se em 01.06.18. Desse casamento foram testemunhas Artur Sebastião Pereira e Abilio Moroni. Pela noiva assinou Giuseppe Bronzato. Maria Laecticia era filha de GIOVANNI PRIMO CAMPANA e PASQUA ANGELA MACCHINA e nasceu em 20.02.1899 em Santa Isabel-Leopoldina. Sobre a família dela falaremos mais adiante.

No processo de partilha da propriedade rural "Palmeiras", de GIUSEPPE PIETRO, está registrada uma extensão de 72 hectares e 62 ares, limitando-se com as propriedades de José Domingos Zampier, Geraldo Mota Couto, Pedro Campagna, Carlos Cosine, Moacyr Alves Ferreira, Sebastião Cardoso, José Bastos Faria Freire, Virgilio Meneghetti, João Lupatini e João Bronzato.

Do casal Giuseppe e Maria Laecticia são os filhos: a) MARIA ASSUNTA LUPATINI, nascida em 31.03.1919, casada com Vitorino Esteves;  b) JOÃO BATISTA LUPATINI,  26.10.20, c.c. Alice Pereira;  c) JOSÉ PEDRO LUPATINI, 1923 c.c. (1) Ruth Batista e (2) Celia Fonseca;  d) OLÍVIA LUPATINI, 07.03.24  c.c. Mauro Fóis. Sobre este casal falaremos adiante; e) ELVIRA LUPATINI, 1926 c.c. Geraldo Cosine;  f) YOLANDA LUPATINI, 1927 c.c. Delson Pereira Furtado;  g) ANTÔNIO LUPATINI, 1928 c.c. Maria Odete Lupatini; h) EDSON LUPATINI, 1930 c.c. Maria das Dores Couto; i) OSWALDO LUPATINI, 1932 c.c. Selma Montes; e,  j) CÉLIA LUPATINI, 1934 c.c. Boanerges Nogueira.

5 - Sobre VICENZO PIETRO LUPATINI, sabemos apenas que  nasceu em Santa Isabel (Abaíba)  e foi  casado com MARIA DOS ANJOS CAMPOS, nascida em Tebas em 11.10.1907; 

6 -  Da mesma forma, pouco sabemos sobre JOÃO LUPATINI. Registramos tão somente o seu casamento, em 06.10.24, com MARIA ZAMPIER ALBERTONI, nascida em 02.06.10.

Sobre Maria Laecticia Campana, esposa de GIUSEPPE P. LUPATINI, sabemos que seu pai, Giovanni Primo Campana, nasceu em 24.03.1857 em Castrezzato-Lombardia-Italia. Sua mãe, Pasqua Angela Macchina é natural de Travagliato-Lombardia-Italia.

Do casal Giovanni e Pasqua são os filhos: 1) Maria Giuseppa Campana, nascida em 20.09.1887, em Castrezzato-Lombardia-Italia; 2) Girolamo Giuseppe Campana, 01.11.88; 3) Giovan Maria Campana, 26.11.90; 4) outro Giovan Maria Campana, 04.09.93; 5) Pietro Gianmaria Campana, 12.05.95, também em Castrezzato-Lombardia-Italia; 6) Maria Laecticia Campana, 20.02.99, em Santa Isabel-Leopoldina, casada com GIUSEPPE PIETRO LUPATINI; 7) Virginia Campana, 24.12.1901, casada com Paschoal F. Lorenzetto; 8) Celestina Lucia Campana, 1910, em Leopoldina, c/c João José Bedin.

Sabe-se que Giovanni e Pasqua e os dois primeiros filhos, vieram no mesmo navio que os Lupatini.

Uma das filhas do casal Giuseppe e Maria Laecticia é OLÍVIA LUPATINI, que se casou, em 30.10.46, com o também oriundi Mauro Fóis, nascido em 08.11.19. Mauro era filho de GIOVANNI FOIS, italiano de Alghero-Sardegna e GIUSEPPINA PICCI, natural de San Vito-Cagliari-Sardegna, Itália. 

Em 08.11.48 o casal OLÍVIA LUPATINI e MAURO FÓIS tiveram o filho JOSÉ MAURO FÓIS, que se casou com NORMA SUELY RODRIGUES DE ALMEIDA. Norma, por sua vez, é filha de MOACYR RODRIGUES DE ALMEIDA e CELINA RODRIGUES. Do casal José Mauro e Norma são os filhos FABÍOLA, FABRÍCIO e LETÍCIA. São também filhos de OLÍVIA LUPATINI e MAURO FÓIS: Sônia, Luciléia, Paulo e Ângela Fois.

Vale registrar, ainda, que além da família de GIOVANNI LUPATINI, encontramos em Leopoldina, mais dois grupos de Lupatinis e, infelizmente, ainda não conseguimos estabelecer se há parentesco entre eles.

O primeiro desses grupo é o de ANTONIO LUPATINI, nascido em 1859 em Castrezzato-Lombardia-Italia, marido de ANTONIA BOSETTI, também natural de Castrezzato e nascida em 1867. ANTONIO LUPATINI consta no Livro da Hospedaria como contratado pelo fazendeiro José Ribeiro Junqueira para trabalhar no distrito Santa Isabel. O casal também veio no Vapor Barmida, em 1895 e trouxe dois filhos. O primeiro deles, PIETRO FRANCESCO LUPATINI, nascido em 19.04.1888 em Castrezzato-Lombardia-Italia, para onde retornou em 1919, casado com GIACOMINA PAOLA LUPATINI. O segundo, GIUSEPPE LUPATINI, nascido em 1890 e de quem não se tem outras notícias.

O outro grupo, segundo informações obtidas na Itália, pode estar  composto da mãe, irmãs, sobrinho e cunhada do Giovanni Lupatini. Ele é formado por ALDA LUPATINI, nascida por volta de 1828, que chegou pelo mesmo Vapor Barmida e foi contratada pelo mesmo fazendeiro, José Ribeiro Junqueira. Com ela veio sua filha Maria Lupatini, nascida em 1858 e que, segundo a listagem da Hospedaria Horta Barbosa, chegou viúva ao Brasil e trouxe o filho ANGELO LUPATINI, nascido na Itália em 1891. Também fazem parte deste grupo, GIUSEPPINA ROSSI, nascida em 1866 e que, segundo a listagem da Hospedaria Horta Barbosa,  era  "nora" de Alda. E ORSOLA LUPATINI, de quem sabemos apenas que nasceu em 1868.

E para encerrar esta coluna, queremos registrar nosso agradecimento especial à Sra. Olívia Lupatini e seus filhos e, ao Dr. Paulo Rubens Lupatini, pessoas que muito colaboraram com nossas pesquisas. A eles,  o nosso muito obrigado e, a todos, o pedido de que continuem enviando-nos cópia de documentos que possam  ajudar a escrever a história destes, de outros colonos e da própria Colônia Constança.

Esta família foi abordada, também, em coluna comemorativa do Centenário da Colônia Agrícola da Constança.

José Luiz Machado Rodrigues

nilza cantoni

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