Família Ferreira Brito

Personagens da história de Leopoldina

João Gualberto Ferreira Brito e seu pai Joaquim Ferreira Brito estão entre os principais formadores do arraial do Feijão Cru. Nascido em 1804, João Gualberto migrou para os sertões do rio Pomba junto com seu pai, sua mãe Joana Maria de Macedo, seus irmãos, sua primeira esposa e toda a família de seu sogro Manoel Antônio de Almeida. Como temos dito em diversas oportunidades, não se pode afirmar a data correta da primeira incursão dos Almeida Ramos, Ferreira Brito e Gonçalves Neto por aquela região. Pelo que se pode observar nos documentos disponíveis, entre 1824 e 1828 deve ter havido uma entrada pela mata mineira de uma tropa da qual fizeram parte alguns dos principais membros destas famílias. Acreditamos que a decisão de transferirem residência para o Feijão Cru tenha ocorrido nesta ocasião, resultando na migração por volta de 1829.

O capitão João Gualberto tornou-se figura de destaque no nascente povoado e tomou parte de sua vida social e política até a sua morte. Já em 1831 aparece entre os “homens bons” do lugar, como um dos grandes proprietários de escravos.  Como chefe político conservador, teve papel de destaque por ocasião da Revolução de 1842. Conta Barroso Júnior, em sua História de Leopoldina, que foi num edifício existente em frente ao Clube Leopoldina que João Gualberto "confabulou com os maiorais do partido em defesa da legalidade".  Tal edifício, já derrubado em 1934, serviu também como presídio para os liberais do Feijão Cru.

É mencionado como proprietário da Fazenda da Grama, da qual fez doações para a formação do patrimônio de São Sebastião. Por falta de documentos não podemos afirmar quando foi feita a divisão desta sesmaria que, inicialmente, aparece como propriedade do alferes Bernardo José da Fonseca. Sabe-se, entretanto, que a Sesmaria da Grama e a Sesmaria da Cachoeira, de propriedade de seu pai, Joaquim Ferreira Brito, confrontavam com a Fazenda do Feijão Cru Pequeno que pertenceu a Manoel Antonio de Almeida, seu sogro.

No Registro de Terras de 1856, a propriedade de João Gualberto é outra, como se vê na seguinte declaração: "O Capitão João Gualberto Ferreira Brito possue uma fazenda de cultura denominada Fortaleza que houve por compra, existe n'esta Freguesia de São Sebastião da Villa Leopoldina, contendo pouco mais o menos quinhentos a seiscentos alqueires de terras que devidem por um lado com D. Maria do Carmo Monteiro de Barros e seus herdeiros, por outro com João Gonsalves Neto, e Joaquim Machado Neto, com Francisco José de Freitas Lima, Jose Thomaz de Aquino Cabral, Antonio Rodrigues Gomes, Antonio Joaquim Teixeira, e com o Tenente Joaquim Jose da Costa Cruz, Fazenda da Fortaleza, vinte e dous de Março de mil oito centos e cincoenta e seis. João Gualberto Ferreira Brito. O Vig.º José Mª Solleiro"

Não descartamos a hipótese de que ele tenha sido proprietário, no início do povoamento de Leopoldina, de alguma "sorte de terras" na sesmaria da Grama. Até porque, encontramos em literatura a referência a três sesmarias e meia que seriam de sua propriedade por volta de 1830. Seriam três delas na então Fazenda Fortaleza, totalizando 575 alqueires, e mais uma sorte de pouco mais de 100 alqueires, na sesmaria da Grama?

A 07.01.1861, ao tomar posse como Vereador, seu nome é o primeiro da lista de eleitos. Na mesma data, assume o Cargo de Presidente da Câmara Municipal de Leopoldina, tendo atuado até 07.01.1865, quando tomou posse como 1º Juiz de Paz do Distrito da Cidade.

Na Assembléia de 07.09.1868, Formação da Mesa Paroquial para eleições de Juiz de Paz e Vereadores, não compareceu por encontrar-se adoentado. Enviou uma carta justificando a ausência, transcrita na folha 2 do livro 32. Mesmo ausente, recebeu 174 dos 1400 votos dados a 9 eleitores, na primeira fase da votação, sendo o mais votado. Na Assembléia do dia 10.09.1868, recebeu apenas 8 dois 2.538 votos dados a 61 eleitores, ficando em 21º lugar. Nesse mesmo dia, na votação para escolha de 4 Juizes de Paz, recebeu 271 votos dos 1.124 dados a 29, tendo sido o primeiro colocado e, portanto, eleito 1º Juiz de Paz.

Na Assembléia de 07.09.1872 foi um dos 11 eleitores escolhidos para formação da Mesa Paroquial. No dia seguinte, recebeu 159 dos 2.549 votos dados a 45 eleitores, ficando em 9º lugar. E, embora aparentemente não estivesse concorrendo a Juiz de Paz, ainda assim recebeu um voto no pleito do dia seguinte, ficando em 16º lugar.

Pelo que pudemos observar no livro 32, de Atas de Eleição de Juiz de Paz e Vereador em Leopoldina, período 1868 a 1872, João Gualberto era dos mais influentes membros do Partido Conservador.

O título de Capitão a ele atribuído tem origem no movimento de 1842, quando assumiu o comando do grupo então residente no Feijão Cru e foi aclamado capitão da tropa que se formou para defender o arraial da invasão dos revolucionários. Mas de fato só recebeu título a 10 Junho 1876, condecorado que foi como Capitão Oficial da Ordem da Rosa. Acreditamos que a condecoração está intimamente ligada não só ao histórico de vida política de João Gualberto como também ao movimento pró abolição da escravatura.

Por esta época existia em Leopoldina um movimento chamado Club da Lavoura, que visava organizar os fazendeiros em torno de um comportamento único no que dizia respeito à contratação de empregados. Embora a literatura amplamente divulgada sobre a escravidão se refira a problemas de variada natureza, sempre deixando claro que a abolição da escravatura trouxe gravíssimas conseqüências para os fazendeiros, a análise de documentos da época demonstra que não foi exatamente o que aconteceu na região de Leopoldina. Desde 1872 já havia um forte movimento em prol da libertação de escravos, funcionando de forma bastante variada. Encontramos cartas de alforria nos moldes tradicionalmente conhecidos mas também indícios de freqüentes levantamentos de depósitos do Fundo de Emancipação. Ao fazerem seus testamentos entre 1870 e 1888, os fazendeiros indicavam que todos ou grande parte de seus escravos estaria livre após sua morte. Independente do falecimento do chefe de um grupo, os escravos das fazendas continuavam a ser alforriados em número expressivo no período indicado. Já em 1872 começaram as contratações de imigrantes para substituir a mão-de-obra cativa. Em 1879 aparecem indicações de contratação de assalariados, muitos deles ex-escravos da própria fazenda. Um outro ponto interessante  de ser observado é a queda da arrecadação de impostos sobre escravos, ocorrida em Leopoldina entre 1875 e 1885. De tudo o que temos observado concluímos que o número de escravos na data da Lei Áurea era bem diminuto. Aparentemente existiam apenas os escravos “de dentro” da casa e uns poucos que trabalhavam “a jornal”, sendo estes últimos, em geral, propriedade de pessoas de pouca fortuna.

É no decorrer deste movimento de emancipação dos escravos que surgem diversas condecorações na região da mata mineira. Ao lado daqueles que receberam títulos de Barão, outros foram condecorados com a Ordem da Rosa e alguns receberam patentes da Guarda Nacional. Parece-nos que estas ocorrências estavam diretamente ligadas a freqüentes visitas de representantes da Corte que intentavam cooptar o apoio do poder agrário ao Imperador.

Conforme foi dito, os pais de João Gualberto foram o tenente Joaquim Ferreira Brito e Joana Maria Macedo, casados a  19 de Fevereiro de 1804 em Santana do Garambeo, MG. Sua mãe era filha de José Rabelo de Macedo e Maria de Carvalho Duarte.

Seu pai, também um dos grandes proprietários de escravos do Feijão Cru em 1831, foi o senhor da Fazenda da Cachoeira onde recebeu a visita do Padre Manuel Antonio Brandão em 1831, o qual lhe sugeriu que doasse terras no vale ao pé da Capela de São Sebastião para a formação do patrimônio do padroeiro. A escritura da primeira doação, em 01.06.1831, apresenta como redator o escrivão interino Antonio Rodrigues Gomes.

Há dúvidas quanto à utilização das duas doações efetuadas por Joaquim Ferreira Brito. Tudo leva a crer que a primeira destinou-se a ampliar o espaço destinado à construção da Capela de São Sebastião. A segunda doação, por constar que foi reservado "um trato de terra" para a edificação da casa do Cura, permite-nos a concluir que se refere ao terreno onde foi construída a Casa do Rosário e, posteriormente, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. No cartório de Leopoldina pode-se encontrar a escritura datada de 20.11.1831, onde Antonio Rodrigues Gomes aparece assinando pela esposa do doador, Dona Joana.

De acordo com documentos arquivados no Cartório do 2º ofício de Leopoldina, no meio fio do Teatro Alencar, situado na antiga Rua Municipal, hoje Cotegipe, encontra-se o limite das três fazendas, na forma do vértice de um triângulo: para o lado da Catedral a Fazenda da Grama, formada pelo Alferes Bernardo José da Fonseca; para o lado do Rosário, a Fazenda da Cachoeira, do Tenente Joaquim Ferreira Brito; para o outro lado, a Fazenda do Desengano, de Maria do Carmo Monteiro de Barros.

Foram filhos de Joaquim Ferreira Brito e Joana Maria de Macedo:

1 - João Gualberto Ferreira Brito.

2 - Ana Ferreira Brito, nascida em 1805 em Bom Jardim de Minas, MG.

3 - Maria Ferreira Brito, nascida em 1808 também em Bom Jardim de Minas, MG.

4 - José Ferreira de Macedo, casado com Ana Carolina.

5 - Mariana Maria de Macedo, casada com Francisco Pinheiro Corrêa de Lacerda

6 - Antonio Ferreira Brito, batizado em Bom Jardim de Minas a 14 de Junho de 1813.

7 - David Ferreira Brito, batizado em Bom Jardim de Minas a 1 de Novembro de 1814.

8 - Francisco Izidoro Ferreira Brito, casado com Mariana.

9 - Joaquina Ferreira Brito.

10 - Ana Tereza de Jesus.

11 - Domingos Ferreira Neto, falecido em Leopoldina a 14 de Abril de 1901. Foi casado com Rita Firmina de Sena falecida a 26 de Novembro de 1909 em Leopoldina.

Joana Maria de Macedo era filha de José Rabelo de Macedo  e Maria de Carvalho Duarte, sendo por esta neta de Caetano de Carvalho Duarte e Catarina Candida de São José. O casal José Rabelo de Macedo e Maria de Carvalho Duarte foi pai também de:

1 - Francisco Rabelo, nascido em São João d'El Rei, casado com  Maria Antonia de Jesus a 16 de Novembro de 1789 em Três Pontas.

2 - Rosa, nascida por volta de 1773 em São João d'El Rei.

3 - Francisca de Macedo, casada com Bento José Ferreira Guimarães a 10 de Setembro de 1800 em São João del Rei.

4 - Domingos, batizado na Igreja da Piedade do Rio Grande, São João del Rei, a 17 Junho 1781.

Caetano de Carvalho Duarte, nascido na Freguesia de São Miguel de Silvares, arcebispado de Braga, Portugal a 24 Dezembro 1702, faleceu a 23 de Dezembro de 1784 em São João del Rei, onde havia se casado com Catarina Candida de São José a 15 de Janeiro de 1736. Catarina era natural da Freguesia de Nossa Senhora das Angústias, Horta, Ilha Faial, Açores.

Foram irmãos de Maria de Carvalho Duarte:

1 - Ana Caetana Duarte, casada com Pedro Rodrigues de Faria.

2 - Ana Maria de Carvalho, falecida a  9 de Março de 1826 em Baependi, foi casada com José Garcia Duarte.

3 - Caetana Maria Duarte, casada com Antonio Corrêa de Noronha.

4 - Caetano de Carvalho Duarte Filho, casado com Ana Maria Joaquina.

5 - Domingas Maria Duarte casou-se com Jerônimo José Martins a 4 de Outubro de 1779 em São Miguel do Cajuru. Ele era natural de São Torquato, Guimarães, Braga, Portugal e faleceu a 16 de Março de 1804 em São Miguel do Cajuru. Ela faleceu a 14 de Julho de 1836 também em São Miguel do Cajuru.

6 - Francisco Antonio de Carvalho Duarte casado com Mariana Carolina Leite Ribeiro a 26 de Abril de 1834 e falecida a 17 de Junho de 1862.

7 - João de Carvalho Duarte casado com Escolástica Maria Lopes de Siqueira.

8 - José de Carvalho Duarte casado com Mariana Antonia de Jesus a 26 de Junho de 1784, falecido a 20 de Abril de 1814 em São Miguel do Cajuru.

9 - Manoel de Carvalho Duarte falecido em 1815 em São João d'El Rei.

10 - Antonio Carvalho Duarte, nascido em 1742 em São João del Rei, casou-se com Mariana Luiza de Jesus. Ele faleceu a 21 de Abril de 1819 e ela a 25 de Abril de 1826.

11 - Florencia Maria de São José casada com Antonio Gonçalves Penha a 13 de Junho de 1761 em São Miguel do Cajuru. Ele nasceu a 27 de Setembro de 1723 em Santa Maria da Ribeira de Pena, Vila Real, Braga, Portugal. Ela faleceu a 6 de Agosto de 1812.

12 - Teresa Maria Duarte casada com Gonçalo Corrêa Neto a 28 de Janeiro de 1765 em São Miguel do Cajuru.

Caetano de Carvalho Duarte era filho de João de Carvalho e Domingas Duarte, casados a 29 de Junho de 1687 na Freguesia de São Miguel de Silvares, arcebispado de Braga, Portugal. Neto paterno de Gonçalo Simões e Domingas Gaspar, neto materno de Inácio Manoel e Maria João.

A esposa de Caetano de Carvalho Duarte, Catarina Cândida de São José, era filha de Manuel Gonçalves da Fonseca  e Antonia da Graça, sendo neta materna de Manuel Gonçalves Correa e Maria Nunes. Foram irmãos de Catarina:

1 - João Gonçalves da Fonseca casado com Teresa Gomes da Rocha.

2 - Maria Tereza de Jesus casada a primeira vez com Inácio Franco e a segunda vez com Bento Rabelo de Carvalho.

Antônia da Graça, terceira-avó de João Gualberto Ferreira Brito, foi uma das lendárias ilhoas, ancestrais de grande parte da população mineira. Com suas irmãs Helena Maria de Jesus casada com João de Rezende Costa e Julia Maria da Caridade casada com Diogo Garcia, são antepassadas de, pelo menos, dois terços dos moradores de Leopoldina do século dezenove.

 

Descendência de Joaquim Ferreira Brito

 

FONTES CONSULTADAS

Documentais

ALMANAQUE DA PROVÍNCIA DE MINAS GERAIS, 1875.

ALMANAQUE DE LEOPOLDINA, 1886.

ARQUIVO DA CÂMARA MUNICIPAL DE LEOPOLDINA. Acervo do século XIX.

ARQUIVO PAROQUIAL DA IGREJA NOSSA SENHORA DO PILAR DE SÃO JOÃO DEL REI. Livros paroquiais, século XVIII.

ARQUIVO PAROQUIAL DE LEOPOLDINA. Livros paroquiais, 1851-1925.

ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Mapas de População de Além Paraíba e Leopoldina, 1831-1834. Registro de Terras de Leopoldina, 1856. Qualificação de eleitores de Leopoldina, 1851.

CEMITÉRIO NOSSA SENHORA DO CARMO, Leopoldina. Livros de sepultamento, 1880-1920.

CENTRO DE MEMÓRIA DO SEMINÁRIO SANTO ANTONIO EM JUIZ DE FORA. Livros paroquiais da serra de Ibitipoca, séculos XVIII e XIX.

MICROFILMES DA IGREJA DE JESUS CRISTO DOS SANTOS DOS ÚLTIMOS DIAS. 1.252.365, 1.252.366, 1.284.964, 1.285.479, 1.285.503, 1.903.510.

MUSEU REGIONAL DE SÃO JOÃO DEL REI. Inventários e testamentos, séculos XVIII e XIX

Publicações

ALBUQUERQUE, Pedro Wilson Carrano. Encontro com os Ancestrais. Brasília, edição particular, 1999.

Domingos dos Reis Silva, o patriarca e seus descendentes.

GUIMARÃES, José. As Três Ilhoas - São Paulo, edição particular, 3 volumes, 1990-1998

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